segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Degustação der ser

Você se descobre inteiro depois de se ver em partes, especialmente quando se olha no espelho e se reconhece com todos os remendos que lhe compõe: tecitura de sentimentos em todas as suas nuances. Sou toda minha e toda eu, quando sou eu mesma, ainda que em partes.

Falo sobre mim de modo que possa me sentir concreta: pedaço, aço, embaraço, corpo, osso, sangue, gente, mente, chão, grão. Poetiso minha história que é em prosa e escrita com traços grossos e firmes. Faço força nos contornos e me enrosco para compor os arabescos. Eu me falo, eu me calo, eu que me sei quando me suponho. Não se atreva, não se meta, não me julgue! Não corra o risco de errar e dividirmos o pecado da nossa existência. Já há muitos perdões a se pedir e distribuir: por que gastar a misericórdia divina com nossa pobreza de apontar o que não compreendemos? Eu existo e não apenas quando penso mas, de modo especial, quando sinto; só que me extrapolo e me expando.

E existir é fascinante…

Então, serei eu um dia captada pelo que sou e não pelo que me faço supor ser? E quantos sóis nascerão nesse intervalo de tempo? Mas não importa, não há pressa nem espera. Há repouso em mim, degustação de ser em si.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Eu sendo

e como gastar-se
eu conheço
e como perder-se
eu entendo
e como encontrar-se
eu procuro

vagando
andando
querendo
e indo
é gerúndio e infinitivo
é o presente do futuro
a precisão do nada
a vaguidão do desejo

redemoinhos de mim
em mim
sem dó
sem sol
sem som

passos firmes
áridos
mas firmes
sem rota
mas em frente

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Vazio

Estou cheia de um vazio que não é mudo nem inocente. Impede as horas, rasga o tempo. É vazio que escorre e se espalha, denso, molesto: contamina os fazeres, os sentidos, os gestos e as palavras. Nasce antes do sol e não dorme com a noite. Inquieta.

Não é sensação, instante, é estado. É febre, frio, lampejos de taquicardia, inapetência, letargia, boca seca. É espera e urgência! Profundas misturas de falta e excesso.

Tenho por obviedade a incerteza e a necessidade de consistir, existir. De longe dá pra se ver o desejo agudo de voltar a renascer de novo e o medo à espreita.

E eu podia dar uma festa, se quisesse ser outra. Mas sendo eu mesma, recolho pedaços e palavras, lhes dou cuidado, reciprocidade e respeito. Há dor e toda dor exige seu luto.

Valha-me Deus! Valha-me nessa fresta de vida em que os pés estão suspensos do chão, se não por suspiros por gemidos.

domingo, 8 de novembro de 2015

Lembrete

Rasgue de vez esse sorriso que eclode aos assobios das tuas palavras
Liberte essa parte de mim que quer ser inteira
Não me distraia
Não se distraia
Usemos o tempo que quer se dar
Ele corre
E é curto
Olhe os sinais
Não são tempos de paz
Demos-lhe vida
E cor
E risos
Não se demore
Não me canse
Estenda a sua mão
Coloramos solstícios
Nas cores do mundo que vejo
Pelos teus olhos
Com minhas mãos
Com suas mãos
E palavras
E ações
Não me distraia
Não se distraia

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reino da noite

Chega a noite e eu me perco nas horas
Nela quero vagar como se fosse dia
Me dispo de veste e me visto de luz
Luz de lua, luz de noite
Parece que as horas me são súditas
E as palavras soam como música
Dançam em meus ouvidos
Pulsam em meu coração
E toda pele vira tinta
Seus arrepios e memória viram palavras
Se derramam pela ponta da caneta 
À noite, todo sentimento se escreve

Nesse silêncio eu reino
É meu reino
As palavras transitam no ar
Explodem como bolhas de sabão
Borbulham como larva de vulcão
É noite e é luz
É ausência de voz e terna companhia
Estou comigo

Mas nada é meu
Não sou dono, rei ou rainha
Essa hora não é minha
E, nesse tempo, sou plebeu
Réu confesso
Rendido e condenado
Com a indignação ignorada
E as palavras
E alma
Sou agora olhos cerrados
Mãos largadas
Escravo do tempo
Nada

sábado, 26 de julho de 2014

Meu sobrenome é Gonçalves, mas bem que podia ser Silva

Um garoto com idade próxima a 12 ou 13 anos inaugurou um debate fervoroso numa lanchonete em que eu estava. Após, sem sucesso, tentar roubar o celular de uma moça enquanto a mesma falava e caminhava desatenta na rua. Assombrada e segurando o choro, a moça foi acolhida e amparada pelos consumidores do estabelecimento, no qual começaram a discorrer as soluções para que este episódio não se repetisse na sociedade. Uns chamaram o episódio de problema social e outros de problema de segurança, mas, o que mais me chamou atenção foram as causas do problema: não levou uma boa surra na infância, falta de polícia na rua, ausência de lei que prenda nessa idade e até a falta de pena de morte no país; as duas últimas, segundo os debatedores, dá aos infratores a liberdade para o crime.
Eu não tenho propriedade para falar sobre leis, nem sobre políticas públicas, tampouco sobre educação de crianças. Mas, também nunca fui vítima direta dessa população e talvez possa apresentar um discurso romântico sobre esta realidade. Contudo, tenho o direito a pensar, refletir e me preocupar com a origem, repercussão e a propagação desse tipo de opinião do qual ouvi. E, ainda tomando meu suco, me perguntei: será que não dá para pensar em oferecer outra coisa para esse menino?
Meu sobrenome é Gonçalves, mas bem que podia ser Silva. Meus pais são oriundos de famílias bem pobres. Ele, nascido no interior do Estado, veio com os pais e outros 5 irmãos para o Recife em busca de uma vida melhor. Não se contentou em ser apenas alfabetizado e desafiou a sua realidade, decidindo completar os estudos por ver neles a oportunidade de se destacar e encontrar essa tal vida que é melhor. Ela e seus outros 5 irmãos são do Recife, mas desses altos que, na época, tinha de luxo a escadaria. A despeito de todas as dificuldades (muitas!), filha de pais divorciados e semi-analfabetos, insistiu em frequentar a escola. Juntos, tomaram a decisão mais absurda para as suas condições socioeconômicas, decidiram formar uma família, dessas que incluem filhos e responsabilidade.
Eu nasci e fui criada em bairros pobres; por uma cartada de sorte e graça de Deus, tivemos casa própria quando eu já tinha 09 anos de idade; nossa primeira televisão com controle remoto veio quando eu já tinha uns 11 anos (e de um sorteio que minha mãe participou por ter sido uma das melhores líderes vendedores de tupperware da época); minha primeira bicicleta (nossa! porque essas coisas eram únicas para mim e meu irmão) também por volta dos 11 anos. Não tivemos videogame, viagem para Disney, grandes festas de aniversário, roupas da temporada ou muitos pares de sapatos (que geralmente eram comprados em números maiores para durarem mais).
Recebemos muitas reclamações, algumas palmadas, horas de castigo, muito exemplo e, principalmente, muito amor e afeto. Com isso, aprendemos que o que é dos outros é dos outros, que o que é nosso é nosso e que dividir o que é nosso pode ser tão prazeroso quanto necessário. Aprendemos que os mais velhos merecem respeito, que os menores precisam de cuidado e que a mentira, além de ferir, afasta as pessoas que amamos. Que expressões como “com licença”, “por favor” e “obrigado” não são favores, mas obrigação de pessoas educadas. Por causa deles, fiz meu primeiro vestibular aos 10 anos, entrei numa das melhores escolas públicas do Recife e iniciei o maior disparate que uma criança pobre pode fazer: aprender! Eram duas ousadias concomitantes: uma escola que ensinava e alunos que aprendiam. E eu o fiz com muita leveza, mas não sem cobranças, porque, por causa deles, eu nunca duvidei que pudesse fazê-lo. Para mim era claro que eu poderia, não só poderia como deveria.
Por causa dos meus pais, dos pais dos meus pais e, talvez, devido aos pais deles eu sou um número fora das estatísticas, uma contradição social... Sou fonoaudióloga, com mestrado em Ciências da Linguagem, atualmente cursando especialização em Linguagem e seus distúrbios. O pouco letramento e as muitas privações dos meus avós não foram suficientes para impedir que seus filhos se tornassem cidadãos de bem. Por sua vez, meus pais quiseram se tornar heróis através de seus filhos – contrariando as previsões sociais, revolucionando nossas vidas com a educação de boa qualidade, na medida do possível e extrapolando essas medidas, às vezes – e conseguiram, são grandes heróis. Somos (meu irmão e eu) o reflexo do esforço e da conduta dos nossos pais e de seus desejos que, por conseguinte, é resultado de experiências, crenças e oportunidades que eles tiveram em seus lares.
E o que a minha vida tem a ver com aquele menino de lá? Faz-me pensar o que seria se fosse. O que ele seria se lhe déssemos outras coisas, se tivéssemos oferecido outras coisas a seus pais e aos pais de seus pais? Penso o que ele seria se tivesse aprendido a ler e escrever corretamente? Se os seus pais fossem corretos e não tivessem que concorrer com as drogas e o dinheiro fácil e ilícito? Se esse desejo de consumo não fosse tão agressivo em nossas mentes e corações? Pensando nele (e em tantos outros como ele) e em mim, penso o que eu seria se não tivesse os pais e a escola que tive? Não desprezo os meus méritos pessoais, mas, seguramente, eles são consequência e não causa das pessoas e das oportunidades da minha vida.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Singular

Só esse jeito, esse seu jeito é capaz de redescobrir as cores do mundo, apesar de cinza, apesar da noite – preserve-o. Tanto quanto essa maneira leve e que chega ao fundo, ao fundo dos olhos, sem ao menos vê-los. Então, assim, você me defende de mim, da minha fraqueza de ceder às feiuras do mundo, que me confundem e me arrastam.

Sem nenhum toque você é capaz de me estender a mão e me alcançar... E alcança as minhas verdades, a minha dignidade e me distingue da mediocridade que me cerca. Eu fui compreendida e salva: o normal é que está ao contrário, não eu! Sua compreensão leal e sincera me acolhe, conforta e afaga.

E eis que eu aceito a dor... Com delicadeza você a põe no meu peito, com delicadeza e satisfação. Porque antes de mim, com seu olhar singular, você enxergou que eu sou maior exatamente pela dor que me aflige. Então, como não aceitá-la? É essa dor aureolada de revolta que me torna livre, consciente e oleosa: eu não me misturo ainda que junto. É nela que reside minha grandeza!

Mas, de todo aprendizado que seu modo de suportar a dor me proporciona, o mais fascinante deles é o mistério que, mesmo na solidão, há companhia. Grata por está aqui, além de está ai.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Se quiser saber, olhe


Abro fendas profundas continuadamente e exibo as entranhas sem despir uma veste. E, por mais profundas que elas sejam, não dão conta de mostrar o que nelas há. Nem eu mesmo tenho certeza do que se pode encontrar, tanto que, às vezes, até me assusto: vez ou outra me dou uma novidade! Minha única certeza é minha infinitude, não que seja eterna, mais inacabada, quase poço sem fim.

Porém, se quiser saber, aproxime-se e veja. Não espere que eu desfie sobre mim, não me rendo tão facilmente. Para me ver, me saber, só mais de perto, quase rente a mim. Visto que, essas palavras que me saltam dos lábios são puro exercício de se fazer ver, de mostrar o que basta, estão prontas para me despistar. A quem quiser saber, olhe mais de perto e, sem perguntas, saiba. Minhas palavras não são resistentes quando olhadas por dentro, por essas janelas que apontam a alma, só por elas saem as verdades que me infortunam e contentam. Elas se rendem quando olhadas nos olhos...

Eu me perturbo, me provoco por horas a fio e me dou a impressão que vivo a me testar. Às escondidas, sangro o querer a fim de exercer o dever - ou suportar o devir? Por mim, me desfaço a fim de me mostrar inteira. Sou mesmo é um ensaio da loucura, revestido de equilíbrio e sensatez, que são superfície, parte de mim, não eu. Por baixo da pele, há um funcionamento que tem por ordem a intensidade e não a organização. 

E quem atestará se não me atravessam o olhar? Deram às palavras o poder de por ordem no mundo, mas elas não dão contam dos mundos particulares e suas sutilezas. Não de mim... De modo que, se não me têm os olhos, não me terá as palavras, nem fendas, nem verdades, nem mentiras. Há de se ter superfície: parte de mim, não eu.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Muita coisa, tanta coisa e quase nada

Cansei das coisas que não sei, das sensações que não entendo. Estou cheia das perguntas que não faço e das respostas que não tenho. Estão me incomodando as palavras que se esvaem, os olhos que se desviam e as mãos que não se encontram. É muita coisa, tanta coisa e quase nada.
Vejo janelas abertas para a mesma paisagem e nenhum vento, exceto o que eu insisto em soprar. Não sei se é desejo ou obrigação de fazer o vento entrar, ou os dois... Tenho contado o tempo em moedas, lamentando cada segundo que gasto enquanto assisto o desperdício. Se eu pudesse, penso que enlouqueceria... Estou em devaneios.
Assim, corto a noite no meio sob um caderno com letras só para meus olhos e palavras para outros corações. Se não interrompo o sono, ele não continua. O que me toma não cabe em mim. Se eu não o lanço fora invade meu sono, minha fome, meu sossego: é brotoeja na alma.
Queria ir la fora e dançar na chuva, despida de vergonhas e inquietações. Rodopiar insanamente uma valsa sem par, desacompanhada e livre. E me cansar de outras coisas que não desse vazio desassistido e morno. Isso é ordinário: eu nem fervo nem gelo. É só inquietude. Cansada...

sábado, 22 de março de 2014

Carta à Clarice

Querida Clarice,

Nos últimos meses, tenho refletido sobre a dor causada para que se sinta prazer em se estar vivo. E, realmente, trata-se de uma atividade significativamente cansativa. Cada vez mais, compreendo sobre o quanto é fácil morrer: é cômodo, dispensa coragem e ousadia. Viver é muito mais assustador; como você mesmo já disse: chega a parecer a grandeza da morte. E, haja força para suportá-la!
Eu vi o prazer nascendo assombrosamente, jamais imaginei que pudesse doer, tampouco que necessitasse da partilha do próprio vazio e que, nesta partilha, estaria exatamente o perigo... Foi o dar-se e o encontrar-se, sem medo de se gastar. Assim, compreendi, definitivamente, sobre a comunicação muda, sobre a solidão acompanhada.
Eis que sinto o sabor da água ruim saída da bica enferrujada: água morna e seca! É verdadeiramente um horror, mas é legítimo. É a busca do prazer (que não o forçado!), é o desamparo de estar viva por querer se fazer motivo e tema, de consistir apesar de.
No fundo, o que busco é o tal “estado agudo de felicidade” do qual você me falou. Mas, como o alcanço com toda essa saudade? A presença me é pouco, minha cara... Pois, por já ter aberto as mãos e o coração, o desejo de ser o outro não se contém, tem-me sido urgente.
É... você tinha razão, é um grande susto estar viva... Espero que o bom Deus me revista com a película necessária para me proteger e tolerá-la: tolerar a vida.
Saudações,
Poliane

sábado, 15 de março de 2014

Furtada e grata

Entrei em casa e, ao me lançar no sofá, senti que estava meio febril. Apesar das mãos frias, eu sentia arder por dentro. Como demanda viajar pra dentro de si... Há prazer, dor e outras sensações que cujas palavras não encontrei para descrevê-las. Ah, as palavras... Quase me foram arrancadas, sem eu perceber, elas me eram tomadas, obrigadas a sair. Precisavam ser obrigadas: não dá para se descobrir e ter palavras para isso ao mesmo tempo, seria uma grande façanha! O fato é que fui sutilmente furtada enquanto queria me dar, e ainda me ganhei de presente.
Meu plano era tão menor. Era ser regaço com gratuidade, doar escuta por desejo de desaguar um peito que teve o riso comprometido. Era menor, contudo, não menos audacioso. Queria tanto ajudar a recobrar o ânimo, o sono e o caminho. E não sei, sequer, se os risos foram conquistas minhas ou doação generosa.
Do que eu sei é do encontro comigo e do tanto que eu me desconhecia. Esbocei-me em giz de palavras, delineei uma face que pode ser minha, ou que poderá vir a ser, mas que era eu...  Que susto ao me deparar com aquela imagem. Eu gostei do que vi: outro susto! Além dele, senti medo. Naquele momento eu não entendia o que era aquilo que chamei de ansiedade. Agora entendo as palpitações e o leve tremor das mãos: medo. Era medo de, enquanto me descobria, ser vista e compreendida. Eu que me despisto desses olhares por sob a pele, me vi, mais uma vez, tirar cascas que eu nem sabia que existiam. Eu que ousava dizer saber pouco de mim, me deparei com o constrangimento de desconhecer esse pouco.
Rabisco inacabado, com vários traços por cima de outros traços, não tinha o meu rosto, mas minhas formas. Traçados por vezes malfeitos, com brechas e falhas e beleza. Um esboço incompleto. E esse estado de incompletude é que me anima. Ainda não acabou, sou isso e não sou, estou me fazendo...
Gratidão. Essa é a palavra que dirijo ao Criador, à vida, àquele ladrão. Afinal, não é todo dia que se encontra consigo mesmo e se agrada dessa presença, que se se depara com a solidão acompanhada, bem acompanhada.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Folheando


Livro aberto, primeira página, olhou a outra
Nada
Mais uma página e mais outra
Sem compreender coisa alguma, nem achar palavra de sentido
Outra página
Outra e a mesma coisa
Letras e letras, mas era coisa alguma
Sem figuras, sem números, sem qualquer pista
Passou à próxima
Ainda sem sucesso
Ops... Talvez agora...
Na próxima e...
Tarde demais!
Fechou-se o livro

Um punhado de lágrimas, por favor!

Estou catando lágrimas como quem cata moedas em dias de fome. O desejo é que a privação seja saciada com a voracidade que atenta. Quero chorar litros e ver se gasto a dor: consumir o que me consome! Mas nem um pingo, nem uma gota... Não debulha nada do olho, nem lá de dentro, parece mesmo que está tudo no meio do caminho, entalado na garganta, misturado com as palavras que também não saíram.

É como diz essa gente que conhece o infortúnio: agora danou-se! Porque não há o que fazer com esses nós que se amarram e que não descem nem sobem no peito. Por isso é que eu digo, é de danar (ou danar-se!) essa lágrima que não cai e a palavra que não sai. É um perder-se de si, uma falta de encontro com o outro. É desalento, é incômodo, é coisa séria e sem futuro.

Onde já se viu não ter lágrima? Então, afim de consolo, faço meu anúncio: compro, troco, negocio qualquer punhado do produto! Já que meu remédio é o tempo, e este me falta, é apenas para fins de acalento, de busca por alívio e quietude. Um punhado de lágrimas, por favor!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Fúria

Difícil entender como tropecei nas próprias pernas, me inebriei com minhas palavras e me findei com as próprias mãos. Com toda sinceridade, eu não me entendo, porém me respeito profundamente. Porque uma mulher que tem fúria merece ser respeitada. De modo especial, quando, apesar da fúria, ela consegue manter intactas todas as coisas ao seu redor; num perfeito estado de normalidade que, aos mais distraídos, parece entoar um silêncio até melódico. E eu tenho fúria!
Esse quê de insanidade que se confunde com valentia para beijos, querelas, travessuras e sofrimento. É um ímpeto que me é intrínseco, que não me deixa ser aos poucos, que me faz querer ser por inteiro. Não sei como dividir afeto em pedaços, beijos em partes, brigas em doses homeopáticas. Faz como pra brincar com uma criança aos poucos? O máximo que eu alcanço é controlar as ações, não as emoções. Apenas me controlo! É preciso respeitar também essas regras que nos garantem a vida em sociedade, asseguram meu direito de ir e vir por ser reconhecida como alguém normal (Freud explica!).
Eu falei que controlo? Creio mais que eu contenho – em todos os sentidos que a palavra aponta. Contenho as lágrimas, o riso frouxo e o do canto da boca, a piada, a solidão, a dúvida, a vontade de dançar na chuva, o desejo, o medo, a ira, a dor, a compaixão. E tudo isso, com muita força. É fúria. Pra sorrir, pra chorar, pra dançar, pra escrever, pra acompanhar, pra dizer que sim ou que não. Se eu estou, preciso ser e, se não puder ser, não há força que me impeça de sentir. E sentir, por sua vez, é uma habilidade que eu desempenho, geralmente, com fúria. Na alegria, por exemplo, eu reluzo – meu sorriso é capaz de ofuscar!
Sendo assim, dá pra imaginar como é quando eu sinto dor, raiva ou tristeza? É duro segurar, entretanto, tudo permanece no lugar e é impressionante como eu sou boa nisso: implodo com maestria. Da boca pra fora, tudo é silêncio. Antes dela, o barulho é intenso e ensurdecedor. Há terremotos por toda parte, no entanto, até aqui, sobrevivi a todos, a todos suportei. Não sem dor, não sem marcas.
Contudo, não aprendi ser vítima, me recolher num canto e esperar ser devorada. Quando acuada, eu me lanço, reajo impetuosamente. Se tropecei nas minhas pernas é porque resolvi seguir em desatenção e assumo a responsabilidade de ter aceitado correr os riscos disso. Só que doeu e dar cabo de si mesmo não é uma tarefa fácil: terremotos. Mas, sou uma mulher que tem fúria, que tolera o tempo do caos porque, cedo ou tarde, hei de pôr o chão nos pés.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

São seus e eu me vi

Assim, sem perceber, descobri mais de mim ao me ver através de outros olhos. E não foram quaisquer olhos... Foi desse olhar que ver por dentro, que interpreta caretas e silêncios. E, sem querer, sem querer deixar (porém, sem conseguir conter) fui me vendo, me revendo. Compartilhando palavras e olhares, fui tecendo afeto, um imenso querer bem. Foi assim que fiz as pazes com a chuva, que me “buarquezei” e redescobri Clarice – uma deliciosa vertigem!

Olhada deste outro lugar, por estes olhos de sol, tive certeza que pareço ter menos idade do que carrego, que isso não me faz tola e que ser engraçada pode ser uma excelente qualidade. Ah! Eu faço caretas! Muitas caretas quando estou “de boa”. Agora sei também que com meia dúzia de plurais sou capaz de fazer chover. E todas essas coisas fazem me sentir ainda mais estranha e mais certa que sou feliz com todas elas.


E como não se sentir feliz ao ser pintada em cores sem nem falar quais as minhas preferidas? É tão bom quanto inspirar músicas. É uma sensação especial, tal qual ser cifrada, decifrada... Tão bom quanto se sentir outra sendo eu mesma, apenas por fazer isso sem economia, gastando a mim mesma, sem culpa...

Ah, doces tardes de feira que me roubaram algumas horas da noite para que eu “me soubesse” um pouco mais do que eu já me conhecia. Olhos de cansaço e ternura que me fizeram emergir de mim e me tomar segredos e me arrancar cascas sem força nem exigências.

Eu que achei saber bastante de mim, encontrei de espelho – largo, gentil e profundo – um par de olhos que viram o que não mostrei e que captou o que ninguém viu, apesar de eu mostrar. Que me fez saber de um quê de incrível que eu desconhecia e de uma beleza que eu desconfiava. Belos olhos, cuja beleza não reside na cor nem na forma, mas no modo de ser. Olhos de cuidado... Cujo olhar carregarei para onde estiver, visto que, nestes instantes, foram meus e eram por eles que eu me via.

Desses olhos, carrego a vitalidade que me impregnou, a ousadia de defender o que acredita, o calor e o sabor que deles se esvaíram. Deles, impressionam-me a sinceridade, a capacidade de acarinhar e de se doar. Deles, a impressão de que as noites podem ter sol, além das estrelas, e que podem ser como água de rio, em que a gente se vê tão belo que deseja adentrar nela.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Sei lá... Tudo coisado

Há uma coisa aqui, bem na garganta, que não deixa nada descer. Faz também o peito parar, não infla nem esvazia. É preciso forçar para o ar circular. É coisa que faz o sono em pedaços e as horas em instantes de deserto. Coisa estranha que acha cheiro onde não tem e muda os sabores do que era muito bom. Procuro melodia e não acho, descubro outras que nem existiam... Que coisa! Que coisa?

Praga, profecia, feitiço, fungo, surto, susto, mal-olhado, demência, anemia, encosto, mandinga... Sei lá... Sei que tudo parece meio coisado!

É coisa de apertar! Aperta por dentro, lá dentro, no interior do interior; aperta também as mãos e os pés e os lábios.Tentei apertar mais, numa tentativa frustrada de buscar alívio, ver se estrangulava isso, só que nada...

Ah, coisa ruim! Qual tua alcunha? Revela essa face que me amedronta de uma vez, dá um nome ao meu algoz, de modo que eu me rebele contra ti. Se ao menos soubesse que és, buscaria forças para te enfrentar. Mas quem és, coisa que me perturba as horas e os sonhos? Por fim, liberta meu coração desse peso, desse sufocamento; descoisa meu tempo, meus pensamentos e meus ais.

domingo, 22 de dezembro de 2013

É de vida ou de morte


Sinto-me na iminência de, mais uma vez, matar-me. De lançar esse corpo que padece e essa mente que agoniza no berço esplendido onde o fim se consuma. Fechar os olhos e abandonar a vida, não sem antes soltar o último suspiro: o alívio. Esse ar expirado que anuncia a extinção da vida e de suas exigências correlatas.
Agora entendo bem a afirmação: morrer é fácil. Haja vista que, basta se abandonar às traças e permitir que os vermes lhe corroam. Difícil mesmo é estar vivo, enveredando-se por esse desafio penoso que é viver. E viver não é apenas uma decisão, é também um ato de fé: é dar-se em sacrifício na esperança de não sentir dor.
Viver é cansativo, requer esforço e dedicação. Eu, que sempre me senti viva, não entendo como nunca tinha me dado conta do esforço que fiz pra me manter assim. Ciente das minhas inúmeras mortes até aqui, achei que sempre havia renascido. Pasma estou em perceber que nunca renasci – apesar desses eventos em que a minha vida se rompera – eu continuei vivendo porque, nessas horas de fim, o que busquei foi me manter em estado de vivente.
Esta condição pulsa no meu interior como minhas têmporas em dias de dores de cabeça. E dói como tal... É como se viver, sorrir e sofrer fosse tudo uma coisa só. Administre-os, meu bem! Se puder, é claro... Ah! Que canseira isso dá. Quanto sono provoca. Se bem que... É... Já não é mais nem sono! É uma contínua embriaguez de estar viva.
Sei que estou prestes a abrir fendas na própria carne, implorando (em vão!) para não sentir dor. E cá estou eu, sem saber se estou a falar de vida ou de morte. Só que, dependendo dá profundidade e da extensão, fendas causam a morte, mas apenas os vivos sentem dor.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Doce e inusitado, Novembro

Definitivamente, o inusitado está reservado para mim! Eu só preciso me acostumar com isso... Com o imprevisto, com o não planejado, com o surpreendente. Com essas coisas que devem acontecer todos os dias, mas que você só viu em cena de filme ou na história que alguém contou. Não com você!
Um homem que não deve ter casa, e que – com certeza! – viu a chuva cair muito mais vezes do que eu, sorriu! Sorriu não, riu de mim! Um mendigo, que minutos antes levara noventa centavos em moeda que eu carregava no bolso, gargalhou, pasmo, ao me ver sentada no banco do parque. Ele achou graça porque eu aceitei a chuva como companhia enquanto dividia um guarda-chuva de maneira meramente ilustrativa. Ele riu porque, diferente dos normais que apenas estranhavam aquele comportamento, sabia que naquele banco, apesar do guarda-chuva, ninguém estava se importando em se proteger, em não se molhar, já estávamos molhados! O mendigo riu de mim porque viu o que ninguém viu. E eu vou guardar essa cena pra sempre!
Assim como ninguém viu os sofrimentos daquele menininho tão lindo e seus planos para se livrar do padrasto. Eu vi e ele resolveu me contar... Pobre padrasto, nem sabe dos crimes que cometeu. Talvez, por querer fazer a coisa certa e ser bom o bastante, roubou os sonhos e comprometeu as grandes fantasias de seu enteado. Talvez mesmo, eu nem precisasse saber de tanto, mas ele me contou... Contou seus medos, seus planos e seus sonhos. Talvez não! Eu realmente não precisava saber, exceto para começar a me perguntar: por que eu?
E como não se perguntar? Oras, eu trabalho num lugar com mais dez pessoas capazes de exercer a mesma atividade e qualquer outra dessas podia ter recebido aquela criança tão linda e esperta, que nem pareceu precisar de mim. Só que eu recebi o filho, eu escolhi receber a mãe e eu resolvi perguntar como ela estava, não apenas perguntar, eu, realmente, quis saber. E para quê? Eu não precisava. Só que, ela sim! E foi assustador... Era tanta dor que ela carregava que quase banhou o lugar que estávamos. Foi tanta dor que saiu dela que até doeu em mim... Eu me desfiz de um jeito que para me refazer de novo levou um tempo maior do que eu imaginava.
Eu me refiz e nesse novo formato, já mais disposta a captar esses sinais estranhos e ainda pouco decifrados, meu novembro se completou com uma mocinha de seus 13 anos e uma vida incrível. É óbvio que eu quis saber da vida dela! Afinal, não é todo dia que alguém lhe convida para assistir a um casamento sem nem conhecer os noivos! Tudo que ela queria era companhia para ver os vestidos e a maquiagem que as convidadas usavam e, claro, a noiva. Tão intrigante quanto o episódio, a jovem garota que pega quatro conduções para ir à escola, faz cursos à tarde, usa roupa de bazar e que nunca foi ao shopping, me ensinou que a vida reserva surpresas a cada momento.

Ah, doce e inusitado novembro! Terá sido efeito peculiar dos seus dias ou uma prévia dos que lhes sucederão? Guardarei todas as suas memórias e carregarei todas as suas lições. Se for um sinal, que se abram meus olhos e meu coração de modo que estejam atentos a identificar e decifrar essas cifras.

domingo, 24 de novembro de 2013

Vôo ou queda?

Eu cai! Não sei ao certo de que altura, estou tonta, confusa, mas eu cai! Era por isso que eu não queria me soltar do chão, desse lugar seguro que conheço tão bem, ou conhecia... Já não sei... Porque essa coisa de saber algo é tão vaga como as nuvens que vi. O que é que eu sei?!
O que é que eu sei que me valha agora? Estou caída e desorientada, talvez tenha batido a cabeça, talvez... O coração, com certeza. Meu corpo está estranho, não sei onde dói, não sei nem se é dor. É uma estranheza que faz o corpo tremer por completo e eu nem estou com frio... Ou estou?...
Que descuido, meu Deus! Como pude abandonar as vestes que me protegiam? Como pude me esquecer que não sei voar? Me lancei, acreditei que estava voando, penso agora, se já não estaria caindo... Olha meu estado, estou aqui, sem conseguir nem respirar bem...
Tive a impressão que estava tocando uma música, só que já não escuto mais nada, nem vejo, em volta está meio turvo... Só sinto... Sinto um tanto de coisas estranhas, sem conseguir nomear nenhuma delas, mesmo porque, são tão desagradáveis que é melhor nem batizá-las!
Nossa, devo estar horrível, aqui, caída! Ainda nem consegui me mexer. Queria pedir ajuda, no entanto, quem me ouviria? Também estou sem voz! Quis gritar e não pude. E mais, seria até vexatório ser vista neste estado! Acho que não quebrou nada. Assim, espero! Aos poucos, vou me mexendo, deve ter sido o impacto. Que impacto!

sábado, 16 de novembro de 2013

Raios-X

Isso que você diz que vê, não passa da ponta do iceberg que me tornei. Não me defina pelo que lhe mostro, há um pedaço muito maior de mim a se descobrir para dizer o que eu sou. Pedaço que eu escondo, muitas vezes, deliberadamente, a fim de manter essa casca intacta e agradável aos olhos que veem.
Sou mais quando se olha ao fundo, só que não tão frio assim. Tenho outras temperaturas também, apesar de, nem sempre aprazíveis...
Essa risada que me escapa enquanto os olhos se apertam, é desse pedaço de mim que aprendeu que está vivo é viver! Mas precisei morrer várias vezes e, algumas vezes, até me matar, a fim de dar conta da nova pessoa que se formara em mim, que eu precisava ser.
Todas as dores que atravessaram esse corpo que ri, deixaram marcas profundas que não se apagam com outras risadas e batons. Compõem a pessoa que me tornei, mas ao custo de carregar feiuras que emergem mesmo em dias ensolarados e noites frescas.
Essa pele sensível que capta pequenas partículas de emoção e delicadeza reveste, na verdade, outra camada marcada de cicatrizes que lhe conferem uma característica mais rígida, ríspida e pouco bela. É dela que escapam os raciocínios rápidos, grosseiros, impregnados de malícia e veneno.
Acredite, sou capaz de ofender com um olhar... 
Com esses mesmos olhos que choram e se enternecem com música e fotografias, com uma linda manhã, com abraços carinhosos e com a dor do outro. Eu também firo, julgo, condeno e mato. E me envergonho... Sofro com essa dureza que não sai de mim e com as ações e reações que provocam.
Esse colorido que se mostra é meu desejo de ser beleza aos que me cercam, de completar o que lhes falta, de ser socorro, lugar afável e luzente, de ser a mão que ergue com a mesma bondade das que me sustentaram. Porque, em raios-X, sou preto e branco e muito contraste.